À noite
quando as ondas quebram sorrateiramente no escarpado, enquanto a cidade dorme,
é que percebo o que sou, o que sinto. É quando as portas da alma se abrem,
sendo estas maiores que e mais pesadas que as da consciência e as do coração, e
enfim posso ser quem realmente sou, sem mascaras, sem algemas, sem preceitos
dogmáticos a serem seguidos. É quando renasço de mim e encontro você, sentada
também sobre suas próprias lembranças observando a lua pairar sobre o mar, recordando
o indesejado tentando se libertar do passado. Compartilhamos então, sem
perceber, sonhos, mágoas, experiências, a vida! E nesse momento o silêncio
amigo acalenta mais do que um beijo apaixonado. Enquanto isso a noite passa, as
estrelas caem, e o sol ressurge imponente e grandioso no horizonte, de olhos
fechados sinto aquecer minha pele, e novamente a vida fluindo pela orla, ouço
as flores se abrindo, os pássaros em revoada despertando. Novamente meu olhar
cruza o teu, um gesto simples, um simples piscar de olhos e tudo é
compreendido, a noite passou e com a ela a tempestade, o dia chegou e com ele a
bonança, seus fantasmas adormeceram e a paz reina momentânea. E não importa se
por muito ou pouco tempo, porque eternidade coexiste com o cair de uma gota de
orvalho. Não importa o que passamos, mas sim o que nos tornamos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário