Todos os dias, pouco antes do romper da aurora, um homem após se levantar, contempla o quarto dos filhos, e vai ao jardim. Chegando lá se depara com rosas, margaridas, fuchsias, flores-de-lótus entre outras, e com o romper da aurora ao desabrochar da mais bela flor a recolhe. Retorna ao quarto e a deixa ao lado de sua mulher com um bilhete.
" Eis aqui a mais bela flor do romper da aurora, delicada como o toque da brisa da manhã, de aroma e frescor agradáveis como as ervas do campo, ainda contendo a doçura do balsamo noturno e adormecida, perdida em seu próprio mundo. "
Novamente ele se retira do quarto, fecha a porta e desce as escadas, adentra um comodo escuro, repleto de livros, com partituras pelo chão, e instrumentos de todos os tipo pelas paredes. Abre as cortinas permitindo assim que os primeiros raios do sol o façam companhia, puxa uma cadeira e sobre ela se assenta, à sua frente uma estante com partituras inacabadas, ao seu lado um velho cello, em uma das mãos uma nanquim e na alma um só propósito: Despertar sua amada. E em uma ultima fagulha de esperança se ajoelha, e ora, pedindo ao Criador que lhe dê forças. Mais uma vez se levanta, e com seus dedos já cansados empulha o arco, acomoda o cello sobre o peito amargurado, e então toca. As cordas vibram, e o som ressoa pela casa, atravessa o comodo e as portas de madeira, passa pela escada, adentra o quarto, e se extingue. As janelas se abrem, a brisa da manhã sopra lentamente e toca a face da mulher trazendo com sigo os as flores do jardim e a esperança de um homem eternamente apaixonado. Enquanto isso ele toca, o arco se movendo para um lado e para outro, as cordas vibrando, seus dedos subindo e descendo pelo braço do instrumento, como se todo seu sentimento transbordasse a alma escorrendo por seus dedos, provindo do mais profundo de sua alma, do seu mais sincero anseio de vida, do seu mais puro e profundo amor. De olhos fechados ele encerra sua sonata, e logo que os abre uma lagrima cai em sua face acariciando-a, recostada ao umbral da porta à sua frente uma mulher, ainda sonolenta, a mais bela imagem que seus olhos já contemplaram, sua amada vestida de seda preta contrastante com seu alvo sorriso e com a mais bela flor do romper da aurora sobre o peito, uma flor-de-lis.

Já nos meus favoritos! Parabéns, é um ótimo trabalho! :)
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