terça-feira, 29 de maio de 2012

Sonata Nocturna


As noites frias de inverno mal começaram e as ruas da cidade já estão vazias. Após passear um pouco pelas ruas retorno ao apartamento, portas trancadas e corredores esquecidos. A chuva começa cair e pela janela vejo as gotas escorrerem. O crepitar da lareira e uma taça de vinho me fazem companhia. Ao meu redor fotos, cartas, um amor morto. Nas paredes pinturas, retratos de um rosto que já não me pertence mais, aquela que antes comtemplei com olhos sorridentes, hoje com lágrimas acre cria cicatrizes em minha face. Minha paz se esvai com a escuridão da noite ao chegar do dia. A luz do sol que antes resplandecia em seus longos cabelos hoje me cega os olhos e me atormenta a alma. O calor de seu corpo que antes me alimentava hoje se equipara ao frio da noite que me abraça.

O tempo para, ainda que os ponteiros do relógio continuem a reger a sinfonia noturna, e enquanto isso meu corpo se aproxima da sacada e observa a chuva a cair sobre as árvores, sobre os prédios, sobre os carros. Como um predador busca pela alma que lhe falta se atira ao véu da noite no anseio de encontra-la nas asas de alguma chimera noturna e enquanto o vento lhe toca a pele, uma ultima vez, ele relembra o toque daqueles lábios que um dia foram a razão de sua existência.

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