As noites frias de inverno mal
começaram e as ruas da cidade já estão vazias. Após passear um pouco pelas ruas
retorno ao apartamento, portas trancadas e corredores esquecidos. A chuva
começa cair e pela janela vejo as gotas escorrerem. O crepitar da lareira e uma
taça de vinho me fazem companhia. Ao meu redor fotos, cartas, um amor morto.
Nas paredes pinturas, retratos de um rosto que já não me pertence mais, aquela
que antes comtemplei com olhos sorridentes, hoje com lágrimas acre cria
cicatrizes em minha face. Minha paz se esvai com a escuridão da noite ao chegar
do dia. A luz do sol que antes resplandecia em seus longos cabelos hoje me cega
os olhos e me atormenta a alma. O calor de seu corpo que antes me alimentava
hoje se equipara ao frio da noite que me abraça.
O tempo para, ainda que os
ponteiros do relógio continuem a reger a sinfonia noturna, e enquanto isso meu
corpo se aproxima da sacada e observa a chuva a cair sobre as árvores, sobre os
prédios, sobre os carros. Como um predador busca pela alma que lhe falta se atira
ao véu da noite no anseio de encontra-la nas asas de alguma chimera noturna e
enquanto o vento lhe toca a pele, uma ultima vez, ele relembra o toque daqueles
lábios que um dia foram a razão de sua existência.

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